Turismo de natureza como política: por que inclusão é argumento econômico
ROHAYHU consultoria | afeto · rede · ação
Existe uma pergunta que raramente aparece nos planos de desenvolvimento turístico brasileiro: quem não consegue acessar esse território? A resposta revela, ao mesmo tempo, uma falha de governança e uma oportunidade desperdiçada.
O turismo de natureza representa 60% do faturamento em venda de viagens no Brasil. Em 2025, as unidades de conservação federais movimentaram R$ 40,7 bilhões em vendas e sustentaram 332 mil empregos. Cada real investido pelo ICMBio retorna R$ 16 ao PIB, um multiplicador que poucos setores alcançam. Os números são suficientemente grandes para justificar qualquer política pública. O problema é que eles ainda não incluem todo o potencial de mercado.
O que fica de fora, e quanto custa
55% da população brasileira possui algum nível de mobilidade reduzida: pessoas com deficiência, idosos, gestantes, crianças, quem está em recuperação temporária. Cada viajante com deficiência leva, em média, dois a três acompanhantes. Isso significa que excluir uma pessoa do acesso a um atrativo é, na prática, excluir um grupo inteiro.
O dado sobre a população LGBTI+ é ainda mais direto: 77% dos viajantes LGBTI+ brasileiros priorizam destinos inclusivos. A exclusão desse público do mercado de trabalho custa ao Brasil R$ 94,4 bilhões por ano — o equivalente a 2,3 vezes o que o turismo movimentou em todas as 175 unidades de conservação federais em 2025. Destino que exclui perde turista. Destino que acolhe ganha mercado. Não é uma afirmação ética. É aritmética.
O que os territórios que deram certo têm em comum
Bonito (MS) e Vale do Pati (BA) são referências porque funcionam como sistemas, não como atrativos isolados.
Em Bonito, o Voucher Único, criado em 1995 a partir da articulação entre prefeitura, atrativos privados, agências, Fundtur/MS e Instituto das Águas da Serra da Bodoquena, controla a capacidade de carga de cada atrativo com precisão. Em 2025, a Taxa de Conservação Ambiental passou a financiar ações ambientais e de saúde pública. O modelo foi replicado em Fernando de Noronha, Chapada dos Veadeiros, Nobres e Barreirinhas. Em 2024, Bonito se tornou o 2º destino LGBTQIA+ mais recomendado do Brasil no ranking Airbnb/IGLTA. Não por acaso: por design.
No Vale do Pati, a integração entre ICMBio, famílias tradicionais residentes, operadora privada, Ministério do Turismo e Braztoa transformou uma tensão territorial em modelo de governança. A comunidade que antes era tratada como problema de gestão virou guardiã ativa do parque: casas se tornaram hospedagem, moradores se tornaram condutores, a renda ficou no território e o êxodo rural foi contido. Resultado: #1 destino LGBTQIA+ em aventura do Brasil (Airbnb/IGLTA, 2024).
O padrão é sempre o mesmo. Nenhum dos dois casos é produto de uma ação heroica ou de um ator isolado. Ambos são resultado de integração: de informações, de atores, de públicos, de objetivos que pareciam incompatíveis.
O que a ROHAYHU vê como estrutura
Quando trabalhamos com governança de turismo, partimos de uma premissa simples: território é poder, e o modo como esse poder é distribuído define quem pode estar presente. Planejar sem considerar acessibilidade, diversidade e participação comunitária não é neutralidade. É uma escolha política que concentra benefícios e dispersa custos sociais.
Nossa abordagem, ancorada em DHDS (Direitos Humanos como Design de Serviços), opera exatamente nessa interseção: construir arranjos institucionais onde a inclusão não é um custo a ser justificado, mas o mecanismo que expande o mercado, protege o ativo ambiental e distribui renda dentro do território. Afeto como método, rede como estrutura, ação como resultado mensurável.
O turismo de natureza brasileiro tem dados suficientes para sustentar políticas ousadas. O que falta, na maioria dos territórios, é integração: entre atores, entre públicos, entre o que o destino oferece e quem consegue chegar até ele.
Essa é a pergunta que vale fazer antes do próximo plano de desenvolvimento turístico.
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